Ele bebia seu café, tranquilamente, enquanto olhava uma
formiga andando sobre a mesa. A tarde estava ensolarada e não ventava. Ele não
gostava quando os dias estavam assim, calmos. Era fevereiro, mas parecia maio.
Aquela sensação de “algo está para acontecer” o perturbava. Tentou desviar o
pensamento enquanto acompanhava o trajeto da formiga sobre a mesa. Levantou-se
e foi até o calendário que estava fixado atrás da porta. Olhou, olhou.
Realmente, era fevereiro ainda.
Ouviu os vizinhos discutindo e se aproximou mais da porta.
Nem respirava com receio que notassem sua presença. Percebeu que era “briga de
marido e mulher”e desistiu de continuar ouvindo.Pensou:” é sempre a mesma
briga, só muda o motivo”. E fazendo voz fininha disse: “Querido, você deu a desculpa que eu queria pra te
infernizar hoje”. E fazendo voz grossa disse: “ Querida, não começa!!!”
Caminhou até a mesa, o café havia esfriado, resolveu fazer
outro café. Olhou pela janela e viu o vizinho saindo rapidamente com o carro,
enquanto a esposa gritava: EU NUNCA ME ARREPENDO DE NADA, MEU NOME É MARIA!!
Por pouco não gritou uma resposta: E O MEU É “SEU VIZINHO”,
MUITO PRAZER.....Dona Maria ...arrependida!!!
Colocou o café, que fizera, na xícara e novamente aquela
sensação lhe invadiu. Sabia que algo aconteceria mas não imaginava o quê.
Quantas vezes tentou imaginar, prever até, mas nunca conseguiu. Era só a
sensação e depois esperar....esperar ...uma angústia...depois um medo... depois
...depois... bem depois acontecia algo. As vezes era algo grave, uma pessoa
querida que morreu, uma casa que desabou próxima a dele. Outras vezes era algo
insignificante, um pneu furado, um chuveiro que queimou.
Respirou fundo...
Sentou-se novamente e ...cadê a formiga?
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